NATUREZA

Natureza (2007), toda parede é um agente da distância anunciada de um lugar, definindo-lhe como próprio ou controlado. Entre paredes, preserva-se o que é íntimo, delineiam-se cômodos que nada deixam passar além de som e imaginação. E, por essas passagens, mesmo quando projeta fronteiras, uma parede tem um viés anímico. A parede do Salão de Arte de Pernambuco, a qual nos foi foi cedida em sua 47º edição, por exemplo, é o verso de nossa obra, cúmplice da ideia de devolver ao cômodo dessa exposição a ilusão de natureza. E isso se faz no pequeno instante em que a imagem desencontra-se do objeto, e, virtualmente, se transforma em um fragmento de mundo natural.

Este ensaio percorre o paradoxo do efeito produzido por um ambiente aparentemente intocado, com alguns de seus elementos fundamentais: água, luz, comida e morada, agora codificados em fotografias. A nossa interferência nesse espaço é discreta, pautada pelo desejo que atravessa toda experiência com o gênero histórico da pintura de paisagem, que é o de devolver essa natureza a um estado natural originário. Os objetos que perturbam esse estado tendem a se apagar, como se apaga a própria presença de quem construiu essa cena que acreditamos ver com os próprios olhos. As imagens estabelecem, nesse trabalho, um recorte contemplativo, parecido com aquele olhar imposto à nossa história pelos primeiros viajantes que relataram a exuberância de nossa terra à curiosidade daqueles que viriam a dominar.

É esse lapso entre o natural e o virtual que propomos com as fotografias de Natureza. Uma fotografia serve para fixar experiências que terminam nos fornecendo uma certa adaptação ao mundo. Porém, no ato de fixar experiências, elas também nos fornecem uma suspensão que devolve movimentos manifestados por recordações, projeções e desejos que reprogramam a atualidade.

Assim, vivemos entre um mundo íntimo, onde tudo é devir, e um outro, quase um contraponto, fornecido por nosso intelecto, que nos permite prever, simular e controlar eventos. Esse último reparte-se em cômodos, onde até o tempo se torna uma medida. Uma fotografia tem, entre suas rebeldias, a capacidade de reconfigurar as intenções que lhe fizeram existir. Por exemplo, nunca parar a vida mesmo quando se apresenta estática e, assim, comporta, sempre, subentendidos. E são eles o mérito de um processo artístico: o dispositivo de fazer de uma concepção, algo para além de um entendimento exato. A fotografia serve a isso e, podemos supor, até um pouco mais.

Construímos cômodos para a nossa sobrevivência. A vida, por exemplo, pode ser entendida por uma organização de imagens interligadas que fazem o mundo funcionar em uma frequência entre o que é atual e virtual, entre o que é vida e o que é vontade. E a nossa inteligência age nos cercando em paredes. Para vivermos é preciso delimitar o real em função das nossas necessidades, o que nos faz pensar em uma certa aplicação vital da fotografia em nossa existência. Natureza, por exemplo, é uma estratégia de domínio para um mundo virtualmente natural anunciado na parede deste Museu que abriga o 47º Salão.